Pois é viventes. Se foi o Outubro e quando percebi, nada havia postado me nosso blog. Bueno, este mês caracterizou-se por uma Primavera com jeito de Outono, com chuvas de volume considerável para o campo nativo, dias de sol suficientes para amadurecer o pasto e as plantas, e com temperaturas amenas, garantindo a retenção de água no solo, ou seja, condições essenciais para o bom andamento da atividade agropastoril, e ainda se desenvolvida de forma sustentável.
Neste intercurso de tempo, além do trabalho, partilha com os amigos e familiares, mudanças de rumos de muitas pessoas queridas, amigos casando, vidas iniciando, crianças crescendo, me tem chegado na companhia dos mates, algumas idéias que achei por transformar em versos simples, de alma nativa e aqui publico alguma coisa. Vamos seguir mateando por aqui...
De Madrugada e Tempo
Madrugada de Primavera,
com cisma ainda de Inverno,
mateio no ritual fraterno,
que há tempo trago comigo,
neste fogonear, lembro os amigos,
na essência de um angico puro cerno.
Às vezes antes da lida,
no momento de calma e luz,
o costume crioulo me conduz,
à versejar campo e frontera,
alma timbrada nas praderas,
que o sol da milonga reluz.
Num bordonear, repasso meu tempo,
notas antigas, guardadas no peito,
lembranças de avós, pelo jeito,
neste cantar feito querência,
assim vou desaguando ausências,
como um rio que corre pro leito.
Marcos Almeida Pfeifer, Outubro 2011, Lua Crescente
Foto: Karen Campani
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Guasqueiros
Imaginem aqueles dias de chuva torrencial e ininterruptas numa cidade. Pessoal se queixando do tempo, "mas pra quê tanta chuva?", "as roupas sempre encharcadas", as reclamações são muitas. Porém, se olharmos para o céu e o verde que ainda têm em nossa cidade, perceberemos a importância da simbiose clima-terra, e principalmente, uma paciência espontânea brotará em nós, ao contemplarmos a criação pura de Deus. Com o templo, contemplar, talvez venha daí, estar com o templo, da natureza, dos campos, dos rios, dos bichos, das flores, do mato, do céu. Pode ser, estarmos com o templo, é estarmos contemplando alguma coisa, bela, que nos tenha significado. Pena os homens fragmentarem a pureza da vida, a verdade que a natureza, ou Deus, ou a luz do cosmo nos oferta a cada dia.
Bueno indiada, pero vim aqui falar da contemplação dos dias de chuva, e justamente nesta atitude do homem perante à natureza é que se encontram os guasqueiros.
Sim, chegamos ao título proposto aqui neste artigo. Nos dias de chuva na campanha, no campo, o trabalho nas invernadas com o gado, numa lida de mangueira, ou na lavoura é praticamente inviável. Nesses dias de chuva constante, quando São Pedro abre "a bica lá de riba", o pessoal da Estância, um peão-caseiro, um campeiro, um domador, se torna também um guasqueiro. Com a água encharcando o campo, resta aos campeiros se aquerenciarem no galpão e darem de mão em alguns tentos (pedaços de couro cru) que ficam pendurados num canto curtindo, para serem artesanados especialmente neste dias. Deste trabalho artesanal com o couro, nascem rédeas, buçais, cabrestos, cintos ou rastras, cinchas, laços, rebenques ou mangos, até mesmo chaveiros e outros regalos que a imaginação do artesão tenha alcance. À este trabalho com o couro, os tentos, ou conhecida tmabém como guasca, é que se deriva o nome de guasqueiro ao seu trabalhador. Artesãos do couro, dos aperos, que ao contemplarem esses dias de chuva, recolhem a pureza do campo para o seu trabalho. Talvez seja por isso que ficamos contemplando tanto, uma peça realizada por um guasqueiro, por um campeiro. "Bah, aquele buçal", ou então "que rastra feita a preceito!", também "este freio foi feito pra o meu gateado!".
Mesmo quem é da cidade, se "queda" a admirar toda a aquela paciência templada com mãos e couros, restos de vida num fundo de campo, que se renovam na paciência, na contemplação, na sabedoria de estar com o tempo, com o templo, com a vida, de ser simplesmente um guasqueiro... E ainda têm muitos que pensam, que acompanhar o tempo é estar atualizado nas tecnologias forjadas por outras máquinas, sem alma, sem tempo!
Aos guasqueiros da Pampa Gaucha, e aos meus estimados amigos e leitores que tiverem a paciência de cevar um mate neste blog, tem um video lindo abaixo, uma homenagem aos que cultivam com amor sua alma e sentimento. O inigualável Jari Terres, cantor criollo da terra gaucha Sudamericana, canta no Festival da Galponeira em Bagé, tema do Otávio Severo, Rafael Xavier e Zé Renato Daudt, "Mulato Guasqueiro".
Em tempo: um abraço aos amigos Silvério Barcellos e André Teixeira, músicos que acompanham o Jari, além do Loco Bender e do Giovane Marques.
Bueno indiada, pero vim aqui falar da contemplação dos dias de chuva, e justamente nesta atitude do homem perante à natureza é que se encontram os guasqueiros.
Sim, chegamos ao título proposto aqui neste artigo. Nos dias de chuva na campanha, no campo, o trabalho nas invernadas com o gado, numa lida de mangueira, ou na lavoura é praticamente inviável. Nesses dias de chuva constante, quando São Pedro abre "a bica lá de riba", o pessoal da Estância, um peão-caseiro, um campeiro, um domador, se torna também um guasqueiro. Com a água encharcando o campo, resta aos campeiros se aquerenciarem no galpão e darem de mão em alguns tentos (pedaços de couro cru) que ficam pendurados num canto curtindo, para serem artesanados especialmente neste dias. Deste trabalho artesanal com o couro, nascem rédeas, buçais, cabrestos, cintos ou rastras, cinchas, laços, rebenques ou mangos, até mesmo chaveiros e outros regalos que a imaginação do artesão tenha alcance. À este trabalho com o couro, os tentos, ou conhecida tmabém como guasca, é que se deriva o nome de guasqueiro ao seu trabalhador. Artesãos do couro, dos aperos, que ao contemplarem esses dias de chuva, recolhem a pureza do campo para o seu trabalho. Talvez seja por isso que ficamos contemplando tanto, uma peça realizada por um guasqueiro, por um campeiro. "Bah, aquele buçal", ou então "que rastra feita a preceito!", também "este freio foi feito pra o meu gateado!".
Mesmo quem é da cidade, se "queda" a admirar toda a aquela paciência templada com mãos e couros, restos de vida num fundo de campo, que se renovam na paciência, na contemplação, na sabedoria de estar com o tempo, com o templo, com a vida, de ser simplesmente um guasqueiro... E ainda têm muitos que pensam, que acompanhar o tempo é estar atualizado nas tecnologias forjadas por outras máquinas, sem alma, sem tempo!
Aos guasqueiros da Pampa Gaucha, e aos meus estimados amigos e leitores que tiverem a paciência de cevar um mate neste blog, tem um video lindo abaixo, uma homenagem aos que cultivam com amor sua alma e sentimento. O inigualável Jari Terres, cantor criollo da terra gaucha Sudamericana, canta no Festival da Galponeira em Bagé, tema do Otávio Severo, Rafael Xavier e Zé Renato Daudt, "Mulato Guasqueiro".
Em tempo: um abraço aos amigos Silvério Barcellos e André Teixeira, músicos que acompanham o Jari, além do Loco Bender e do Giovane Marques.
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terça-feira, 22 de junho de 2010
Tempo, cultura e Inverno
Volto a escrever aqui meus amigos, já defasado no tempo. Uma vergonha até, quando publiquei a última postagem. Porém, aconteceram grandes momentos para a cultura gaúcha nesse tempo. No ínicio deste mês, ainda no Outono, em meio à geada e ao frio do planalto catarinense, se realizava em Lages, a 18ª Sapecada da Canção Nativa, festival de música gaúcha, que reúne músicos, compositores e cantores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, e Uruguai e Argentina. A partir daí, começamos a compreender alguns rastros do corredor que levam a invernada de solo fértil e plena de pastagem, da dimensão da cultura gaúcha. O dialeto musical e poético que integra gaúchos e "gauchos", do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, encontra lugar na consciência cultural dos irmãos de Santa Catarina, especialmente na região serrana, o planalto catarinense. Uma região que foi rota de tropeadas em tempos passados, cuja memória renasce na atitude gaúcha e autóctone de seus jovens cantores e compositores dos tempos atuais. Assista o video abaixo, com a composição "Do Passo ao Rincão da Raia", que retrata a região das tropeadas em Santa Catarina, e a relação ancestral do tempo e da vida, do neto que herdou do avô, o ofício de tropeiro. Intérpretes: Érlon Péricles, Juliano Moreno e Ângelo Franco
A riqueza musical e poética apresentada no palco do Festival da Sapecada de 2010, indica um rumo cada vez mais maduro, qualificado, autêntico e ao mesmo tempo original da cultura gaúcha. É de destacar o trabalho de Índio Ribeiro, Vitor Amorim e o grupo Coração de Potro, naturais da região de Lages, e a musicalidade que vêm imprimindo nas suas composições, com quatro e até cinco guitarras (violões), ao melhor sabor da fronteira, mas com estilo próprio.
Um outro aspecto que marcou muito esta edição do Festival, foi o nível poético das composições, com letras autênticas, humanas, versando sobre a história das tropeadas da região, a saudade do homem pela sua querência, a existencialidade no fim da vida, os olhos da mulher amada, e a singeleza de um buçal(1)trançado especialmente para um gateado(2).
Até o fim da semana, postaremos mais informações sobre este grande Festival da Sapecada em sua 18ª edição. Ademais, só resta agradecer à comunidade de Lages em Santa Catarina, e aos compositores e músicos que participaram do festival, pela elevação da qualidade poética e musical da cultura gaúcha, ampliando seu espaço, seu cosmo.
(1) buçal - *espécie de cabresto com focinheira. É uma peça de couro que faz parte dos arreios e é colocada na cabeça e pescoço do cavalo.
(2) gateado - pêlo do cavalo entre o amarelado e o avermelhado, com uma raia(lista) por sobre o lombo, e com crinas, cola e membros da mesma cor.
* NUNES, Zeno Cardoso; NUNES, Rui Cardoso. Minidicionário Guasca. Martins Livreiro Editor, 1987
A riqueza musical e poética apresentada no palco do Festival da Sapecada de 2010, indica um rumo cada vez mais maduro, qualificado, autêntico e ao mesmo tempo original da cultura gaúcha. É de destacar o trabalho de Índio Ribeiro, Vitor Amorim e o grupo Coração de Potro, naturais da região de Lages, e a musicalidade que vêm imprimindo nas suas composições, com quatro e até cinco guitarras (violões), ao melhor sabor da fronteira, mas com estilo próprio.
Um outro aspecto que marcou muito esta edição do Festival, foi o nível poético das composições, com letras autênticas, humanas, versando sobre a história das tropeadas da região, a saudade do homem pela sua querência, a existencialidade no fim da vida, os olhos da mulher amada, e a singeleza de um buçal(1)trançado especialmente para um gateado(2).
Até o fim da semana, postaremos mais informações sobre este grande Festival da Sapecada em sua 18ª edição. Ademais, só resta agradecer à comunidade de Lages em Santa Catarina, e aos compositores e músicos que participaram do festival, pela elevação da qualidade poética e musical da cultura gaúcha, ampliando seu espaço, seu cosmo.
(1) buçal - *espécie de cabresto com focinheira. É uma peça de couro que faz parte dos arreios e é colocada na cabeça e pescoço do cavalo.
(2) gateado - pêlo do cavalo entre o amarelado e o avermelhado, com uma raia(lista) por sobre o lombo, e com crinas, cola e membros da mesma cor.
* NUNES, Zeno Cardoso; NUNES, Rui Cardoso. Minidicionário Guasca. Martins Livreiro Editor, 1987
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