sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um mate de primavera

Amigos, que saudade! Faz tempo que não apareço para "charlarmos" neste espaço crioulo da cultura simples da terra e da alma da gente. As lides de concurso e trabalho na campanha me tomaram desde Agosto. Pois é, chegando fim de Outubro, primavera linda e não escrevi nenhuma linha. Setembro que é um mês de grande relevância do ponto de vista ambiental, histórico e cultural para o povo gaúcho, também não postei um comentário sequer. Porém a cosmovisão mais linda, e talvez importante do mês de Setembro e que prossegue até Dezembro, é a chegada da Primavera no Hemisfério Sul do Planeta. No bioma Pampa, e nas demais regiões do Rio Grande do Sul, Serra, Litoral, Planalto, o Centro do Estado com seus vales, o equinócio da Primavera descortina a paisagem que reflete a nossa alma perante a vida, ou a vida perante a alma da gente. Os aromas que brotam das campinas, das flores das laranjeiras, dos jasmineiros, das roseiras, e o cheiro silvestre que emana da mataria enquanto o vento Sul sopra constante e intenso nesta época de meia-estação.
Tempo de parição da terneirada, da potrada que um dia virá carregar a Querência, como diz numa música de Don Lambari. É tempo da biodiversidade da fauna e flora que compõem o bioma Pampa, mostrar a vida da maneira mais sublime que podemos conhecê-la; expressa nos campos, arroios, sangas, matos, horizontes e céu. As aves que começam a migrar em bando do Hemisfério Norte, habitando as copas das árvores e os banhados desta nossa Campanha.
Que possamos enfim, encilhar um rosilho ajeitado, bem à preceito, e recorrer os caminhos largos e aromados desta Primavera.
Deixo um tema "no más", um video com este canto atávico da terra gaúcha, e profundo da nossa raíz missioneira.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Guasqueiros

Imaginem aqueles dias de chuva torrencial e ininterruptas numa cidade. Pessoal se queixando do tempo, "mas pra quê tanta chuva?", "as roupas sempre encharcadas", as reclamações são muitas. Porém, se olharmos para o céu e o verde que ainda têm em nossa cidade, perceberemos a importância da simbiose clima-terra, e principalmente, uma paciência espontânea brotará em nós, ao contemplarmos a criação pura de Deus. Com o templo, contemplar, talvez venha daí, estar com o templo, da natureza, dos campos, dos rios, dos bichos, das flores, do mato, do céu. Pode ser, estarmos com o templo, é estarmos contemplando alguma coisa, bela, que nos tenha significado. Pena os homens fragmentarem a pureza da vida, a verdade que a natureza, ou Deus, ou a luz do cosmo nos oferta a cada dia.
Bueno indiada, pero vim aqui falar da contemplação dos dias de chuva, e justamente nesta atitude do homem perante à natureza é que se encontram os guasqueiros.
Sim, chegamos ao título proposto aqui neste artigo. Nos dias de chuva na campanha, no campo, o trabalho nas invernadas com o gado, numa lida de mangueira, ou na lavoura é praticamente inviável. Nesses dias de chuva constante, quando São Pedro abre "a bica lá de riba", o pessoal da Estância, um peão-caseiro, um campeiro, um domador, se torna também um guasqueiro. Com a água encharcando o campo, resta aos campeiros se aquerenciarem no galpão e darem de mão em alguns tentos (pedaços de couro cru) que ficam pendurados num canto curtindo, para serem artesanados especialmente neste dias. Deste trabalho artesanal com o couro, nascem rédeas, buçais, cabrestos, cintos ou rastras, cinchas, laços, rebenques ou mangos, até mesmo chaveiros e outros regalos que a imaginação do artesão tenha alcance. À este trabalho com o couro, os tentos, ou conhecida tmabém como guasca, é que se deriva o nome de guasqueiro ao seu trabalhador. Artesãos do couro, dos aperos, que ao contemplarem esses dias de chuva, recolhem a pureza do campo para o seu trabalho. Talvez seja por isso que ficamos contemplando tanto, uma peça realizada por um guasqueiro, por um campeiro. "Bah, aquele buçal", ou então "que rastra feita a preceito!", também "este freio foi feito pra o meu gateado!".
Mesmo quem é da cidade, se "queda" a admirar toda a aquela paciência templada com mãos e couros, restos de vida num fundo de campo, que se renovam na paciência, na contemplação, na sabedoria de estar com o tempo, com o templo, com a vida, de ser simplesmente um guasqueiro... E ainda têm muitos que pensam, que acompanhar o tempo é estar atualizado nas tecnologias forjadas por outras máquinas, sem alma, sem tempo!

Aos guasqueiros da Pampa Gaucha, e aos meus estimados amigos e leitores que tiverem a paciência de cevar um mate neste blog, tem um video lindo abaixo, uma homenagem aos que cultivam com amor sua alma e sentimento. O inigualável Jari Terres, cantor criollo da terra gaucha Sudamericana, canta no Festival da Galponeira em Bagé, tema do Otávio Severo, Rafael Xavier e Zé Renato Daudt, "Mulato Guasqueiro".

Em tempo: um abraço aos amigos Silvério Barcellos e André Teixeira, músicos que acompanham o Jari, além do Loco Bender e do Giovane Marques.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

De alma, pampa e Minuano II

Opa. Nem reparei que pampa está escrito em minúscula, pois dá nome à um bioma, logo teria de ser grafada em maiúscula. Mas não vou arrumar, tem que editar, cosa e tal, então vamos ao conteúdo e não à forma. Pois dando seqüência ao sentimento nativo do Inverno pampeano, há uma obra das mais belas e conscientes já realizadas na música e poesia do Rio Grande do Sul, extensiva à toda cultura da Pampa. É um poema que tem gênese, vigor, terra, alma, universo e evolução da consciência humana. Seus versos trilham "huellas" de luz e espiritualidade, e a melodia alcança os acordes mais essenciais e autênticos da alma pampeana, numa composição que esclarece a universalidade dos homens, e a identificação espontânea, do sentir e do pensar dos gaúchos de toda Pampa, seja no Uruguay, Argentina ou Brasil. Falo da composição "Batismo", de Sérgio Carvalho Pereira, autor da poesia, e de Juliano Gomes, autor da melodia. Não por acaso, foi a vencedora da Décima Edição do Festival Um Canto Para Martin Fierro, de Santana do Livramento, em Dezembro de 2008, quando conquistou a maioria dos prêmios daquela edição.
Abaixo, a letra da composição "Batismo".

Batismo

Com incensos de aroeira
E salmos de uma milonga
Água benta de cambona
E um claro de lua inteira
Longe dos templos de ouro
Bajo uma quincha pagã
Pelegos, tiras de couro
Me batizei entre os touros
Ungidos de picumã.

Meu batistério: um galpão
Derreado pelos minuanos
Vento do Sul, soberano
Minha primeira oração
Depois, pros males do corpo
Peguei a cuidar da alma
Fervendo infusões de campo
Con yerbas de Viernes Santo
E silêncios, que a dor acalma.

Na flor das mãos, o calor
Da queimadura do laço
O batizado machazo
Dos que não tem tirador
Me benzi de Invernos grandes
Para cruzar las heladas
Depois que a junta se entangui
Mistura a geada no sangue
Já não se sente mais nada.

Segui o gado que berra
Numa culatra de tropa
Da poeira que o casco solta
Me cobre o manto da terra
Me iluminei de mandados
Cruzadores de tormenta
Vi a força do descampado
Que um raio sobre o alambrado
Mestre de angico arrebenta.

E assim me tomei cristiano
E assim que me reconheço
Na minha oração, paisano
Cada milonga es un rezo
Cada rancho é como um santo
Por mais humilde, meu templo
Juntei nada e juntei tanto
Nestes batismos de campo
Na solidão do meu tempo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

De alma, pampa e Minuano I

Como vão meus amigos?
Voltando a postar aqui no blog, início de mês, Inverno consistente, com "helladas" em boa parte de Julho, continuando neste mês de Agosto.



E pra quem madruga nestas manhãs geladas, ousei publicar alguns versos que fiz em Maio, pra deixar de acalanto aos mates do amanhecer no frio do Sul.

Escritos da madrugada
buscam versos,
das últimas estrelas,
a luzirem no céu

E a melodia das primeiras aves,
compondo na partitura do horizonte,
com clave de Sol,
um novo dia,
que destapa mansamente a silhueta da Pampa

E eu...
guardo a "estrelita"
que acampou na quincha
No findar da madrugada

Foto: Mara Peçanha. Inverno em Dom Pedrito

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Lembrando do Payador, da Pampa e da Guitarra

No dia 8 de Julho, completaram-se 11 anos do falecimento de Jayme Caetano Braun. Poeta e payador de característica inigualável, que deixou uma obra iluminada de telurismo, autenticidade, raízes e cosmovisão, ou seja, um canto genuinamente gaúcho com dimensão universal. Jayme, através de seus versos e payadas, iluminou o horizonte do povo gaúcho, e o principal, das novas gerações, dos jovens que buscam nas poesias do payador, a consciência e o lirismo que se encontra escasso no mundo de hoje.
Vejo Jayme Caetano Braun como um guia da cultura gaúcha ou até mesmo de quem busque valores humanos, do amor à vida, à natureza, percebendo este planeta como uma grande pátria de irmãos, comungando a fraternidade e amizade junto ao grande ventre da Terra.
Compôs com Noel Guarany, o canto principal da sonoridade crioula da música e da poesia do Rio Grande do Sul. Juntos, trascenderam fronteiras, reunindo num mesmo disco, temas do folclore uruguaio e argentino, além de suas próprias autorias, e a musicalidade de Los Caminantes; o violonista Bartolomeu Palermo e o acordeonista Raul Barboza, argentinos, que embuídos da mesma essência nativa de Jayme e Noel, participaram da gravação do trabalho fonográfico, que foi o divisor de águas da cultura nativa pampeana, o LP "Payador, Pampa y Guitarra".

Ao escutar o clássico "Payador, Pampa y Guitarra", me descortina um céu azulado, temperatura gelada - coincidentemente estamos atravessado um "friozito" desses - a calmaria histórica do calçamento das ruas, o arvoredo da praça dando compasso ao vento, os ensinamentos e os conselhos de Eron Vaz Mattos e Hipólito Morais, que meu amigo Augusto, filho do Hipólito, e eu ouvíamos desses mestres, num matear atento e curioso da nossa adolescência. E levando a vista "más adelante", o horizonte pampeano que contorna a cidade de Bagé.
Passaram-se 15 anos, transformações profundas ocorreram em nosso sistema de vida, entramos na era da instantaneidade: do consumo, das comunicações, das relações humanas, nos distanciando da essência da vida.
Porém, existe algo, que trago lá de 1995, nos momentos de telurismo, amizade e consciência com os amigos de Bagé, e dos tantos que encontrei tempo a fora, um canto, um mantra pode-se assim dizer, que estanca o imediatismo inventado pelo homem e me reporta à autêntica e legítima consciência do Ser; quando escuto os acordes e os versos eternos de Jayme Caetano e Noel Guarany, quando escuto "Payador, Pampa e Guitarra".

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Marco Aurélio Vasconcellos na Casa de Cultura

Amigos, buenas tardes! Ainda que encima da hora, mas acho que ainda dá tempo de vocês se programarem, ou no improviso mesmo ehehhe, comparecerem e assistirem à este grande espetáculo. O cantor e compositor Marco Aurélio Vasconcellos, uma das principais vozes do nativismo, cuja sensibilidade e autenticidade, juntamente com o grupo Os Posteiros, marcaram a história da música gaúcha na melhor fase da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana.
Um abração e em seguida vamos trazer mais informações aqui.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Tempo, cultura e Inverno

Volto a escrever aqui meus amigos, já defasado no tempo. Uma vergonha até, quando publiquei a última postagem. Porém, aconteceram grandes momentos para a cultura gaúcha nesse tempo. No ínicio deste mês, ainda no Outono, em meio à geada e ao frio do planalto catarinense, se realizava em Lages, a 18ª Sapecada da Canção Nativa, festival de música gaúcha, que reúne músicos, compositores e cantores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, e Uruguai e Argentina. A partir daí, começamos a compreender alguns rastros do corredor que levam a invernada de solo fértil e plena de pastagem, da dimensão da cultura gaúcha. O dialeto musical e poético que integra gaúchos e "gauchos", do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, encontra lugar na consciência cultural dos irmãos de Santa Catarina, especialmente na região serrana, o planalto catarinense. Uma região que foi rota de tropeadas em tempos passados, cuja memória renasce na atitude gaúcha e autóctone de seus jovens cantores e compositores dos tempos atuais. Assista o video abaixo, com a composição "Do Passo ao Rincão da Raia", que retrata a região das tropeadas em Santa Catarina, e a relação ancestral do tempo e da vida, do neto que herdou do avô, o ofício de tropeiro. Intérpretes: Érlon Péricles, Juliano Moreno e Ângelo Franco




A riqueza musical e poética apresentada no palco do Festival da Sapecada de 2010, indica um rumo cada vez mais maduro, qualificado, autêntico e ao mesmo tempo original da cultura gaúcha. É de destacar o trabalho de Índio Ribeiro, Vitor Amorim e o grupo Coração de Potro, naturais da região de Lages, e a musicalidade que vêm imprimindo nas suas composições, com quatro e até cinco guitarras (violões), ao melhor sabor da fronteira, mas com estilo próprio.
Um outro aspecto que marcou muito esta edição do Festival, foi o nível poético das composições, com letras autênticas, humanas, versando sobre a história das tropeadas da região, a saudade do homem pela sua querência, a existencialidade no fim da vida, os olhos da mulher amada, e a singeleza de um buçal(1)trançado especialmente para um gateado(2).
Até o fim da semana, postaremos mais informações sobre este grande Festival da Sapecada em sua 18ª edição. Ademais, só resta agradecer à comunidade de Lages em Santa Catarina, e aos compositores e músicos que participaram do festival, pela elevação da qualidade poética e musical da cultura gaúcha, ampliando seu espaço, seu cosmo.

(1) buçal - *espécie de cabresto com focinheira. É uma peça de couro que faz parte dos arreios e é colocada na cabeça e pescoço do cavalo.
(2) gateado - pêlo do cavalo entre o amarelado e o avermelhado, com uma raia(lista) por sobre o lombo, e com crinas, cola e membros da mesma cor.

* NUNES, Zeno Cardoso; NUNES, Rui Cardoso. Minidicionário Guasca. Martins Livreiro Editor, 1987